segunda-feira, julho 11, 2005

MANIAC


de William Lustig, 1980 [EUA]
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Após iniciar carreira com o soft-core «The Violation of Claudia» (1977), Lustig junta-se ao actor Joe Spinell (veterano de filmes de Coppola, Scorsese e Jonathan Demme) para um projecto que viria a mudar a face do horror norte-americano. «Maniac», assim se chamou a proeza, é ainda hoje um dos mais perturbadores retratos da solidão e da psicose urbana. Nele se aborda a história de Frank Zito (Spinell em mais um dos seus brilhantes trabalhos de composição), um zé-ninguém que vive sozinho num peçonhento quarto de hotel. Zito tem por hábito falar com a sua mãe há muito falecida e apenas sai de casa para assassinar jovens modelos que apanha a jeito na noite nova-iorquina, para depois se entreter a escalpá-las. Regressado ao lar, doce lar, deita-se com um dos seus vários manequins femininos de pronto-a-vestir, sobre o qual irá colocar a cabeleira da sua última vítima. Parente afastado de Norman Bates e meio-irmão de Travis Bickle, Zito pertence àquela galeria de personagens trágicas que foram povoando o imaginário distorcido de uma cidade que tudo engole, e é, ele próprio, a principal vítima da sua alienação. O filme de Lustig fala de assuntos sérios, mas a extrema violência das suas imagens levou às mais ferozes críticas à data de estreia. Se «Taxi Driver» ainda era um trabalho estilizado, «Maniac» abre a ferida até lhe conseguir remexer as entranhas. Há aqui muitas vísceras expostas (cortesia de Tom Savini), desde cabeças que explodem e outras que são amputadas a, evidentemente, inúmeras cenas de escalpamento. Não é para todos, está visto, e mesmo os mais habituados a estas andanças podem sair do filme com vontade de ir tomar um prolongado duche para eliminar a pestilência do que acabaram de ver. Mas é um filme que dificilmente se esquece, adoptando criativamente os recursos estilísticos do giallo (algo a que as plateias norte-americanas não estavam de todo habituadas) e apostando numa personagem central tão real que parece entrar pela nossa sala adentro. A partir daqui, o cinema de terror nunca mais foi o mesmo: a violência cinematográfica não parou de crescer, dando origem a um sem-número de fitas censuradas em diversos países e ao que se viria a designar por video nasties. Legado de um filme que ousou falar mais alto do que os outros.

[Texto editado a partir do original publicado na revista DVD Review, número 34, Agosto de 2004.]

(Maniac ainda anda por aí na sua edição limitada a cinco mil cópias, lançada pela Anchor Bay, que é uma daquelas peças de colecção que dá vontade de exibir a todos os amigos que nos visitam para uma sessão de cinema. É que para além de vir embrulhado numa luxuosa caixa de metal, contendo o disco principal com o filme [em DTS] e ainda como bónus um picture-disc com a banda sonora, oferece também um sem número de extras, desde um comentário de áudio a entrevistas, um documentário sobre Joe Spinell, vários trailers e galerias de imagens. Com alguma sorte ainda a encontram, mas, para os mais desafortunados, a Anchor Bay lançou também um DVD simples com os mesmíssimos conteúdos e esse será fácil de encontrar em qualquer boa loja online. Por exemplo aqui.)